Urna Eletrônica Brasileira: História, Tecnologia, Segurança e Evolução

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A urna eletrônica é um dos principais símbolos da informatização das eleições brasileiras. Criada pela Justiça Eleitoral e utilizada pela primeira vez nas eleições municipais de 1996, ela modificou profundamente a maneira como os votos são registrados e apurados no país.
A implantação ocorreu inicialmente em parte do eleitorado e foi ampliada progressivamente. Em 2000, a votação eletrônica passou a ser utilizada em todos os municípios brasileiros, consolidando a informatização do processo eleitoral. Desde então, a tecnologia passou por diversas gerações de hardware e software, incorporando melhorias de processamento, segurança, acessibilidade e mecanismos de auditoria.
Ao longo de três décadas, foram desenvolvidos 14 modelos de urna eletrônica, desde a UE1996 até a UE2022. Nas Eleições Gerais de 2026, quatro gerações estarão em utilização: UE2013, UE2015, UE2020 e UE2022.
Mais do que um equipamento utilizado para registrar votos, a urna eletrônica pode ser analisada, do ponto de vista da Tecnologia da Informação, como um sistema computacional especializado, desenvolvido para executar uma finalidade específica dentro de uma arquitetura eleitoral mais ampla.
A importância da informatização das eleições
Antes da informatização, a votação brasileira utilizava cédulas de papel e dependia de processos manuais de contagem e apuração. A introdução da urna eletrônica modificou significativamente esse cenário. A tecnologia foi incorporada com o objetivo de proporcionar maior rapidez à votação e à apuração, reduzir etapas manuais e permitir que os resultados fossem processados eletronicamente.
Em 1996, a urna foi utilizada em todas as capitais, com exceção de Brasília, e em municípios com mais de 200 mil eleitores, alcançando aproximadamente 30% do eleitorado. Em 1998, sua utilização foi ampliada e, nas eleições de 2000, a votação eletrônica chegou a todos os municípios brasileiros.
A informatização também introduziu uma série de conceitos relacionados à Tecnologia da Informação no processo eleitoral, como:
sistemas embarcados;
hardware dedicado;
armazenamento eletrônico;
criptografia;
assinatura digital;
autenticação;
controle de integridade;
segurança física;
auditoria;
acessibilidade;
processamento e transmissão de dados.
Dessa maneira, a urna eletrônica tornou-se um exemplo de aplicação de diferentes áreas da informática em uma infraestrutura de grande escala.
O que é a urna eletrônica?
A urna eletrônica brasileira pode ser entendida como um computador de uso específico, projetado para funcionar dentro do processo eleitoral. Diferentemente de um computador pessoal, ela não foi concebida para executar programas de uso geral, navegar na internet ou instalar aplicativos. Seu hardware e seu software são desenvolvidos segundo requisitos específicos estabelecidos pela Justiça Eleitoral.
A urna possui componentes próprios para executar o software eleitoral, armazenar informações, receber os comandos do eleitor e do mesário e produzir os registros necessários ao processo de votação.
Nas Eleições de 2026, por exemplo, estarão em operação 563.910 urnas eletrônicas dos modelos UE2013, UE2015, UE2020 e UE2022. Os modelos mais recentes representam aproximadamente 77% dos equipamentos utilizados.
A urna eletrônica é um computador conectado à internet?
Uma das características importantes da arquitetura da urna é sua operação isolada das redes convencionais durante a votação. A urna não funciona como um computador conectado à internet para receber votos ou programas externamente durante a votação. A arquitetura eleitoral utiliza procedimentos específicos para instalação, autenticação, armazenamento e transmissão dos resultados.
Por isso, é importante separar conceitos que muitas vezes são confundidos:
Urna eletrônica: equipamento utilizado para registrar os votos.
Sistemas eleitorais: conjunto de programas utilizados em diferentes etapas do processo.
Boletim de Urna (BU): documento eletrônico e impresso produzido ao final da votação em cada seção, contendo os resultados daquela seção.
Transmissão: processo pelo qual os dados dos boletins são encaminhados aos sistemas responsáveis pelo recebimento das informações.
Totalização: processo de consolidação dos resultados provenientes das diferentes seções eleitorais.
Portanto, a urna, a transmissão dos resultados e a totalização são componentes distintos dentro de uma infraestrutura maior.
Criptografia e assinatura digital
A segurança lógica é uma das características mais importantes da arquitetura eleitoral. A criptografia é utilizada em diferentes mecanismos de proteção dos sistemas, enquanto a assinatura digital permite verificar a autenticidade e a integridade de programas e arquivos. Um dos princípios fundamentais é garantir que o software executado pela urna corresponda aos sistemas oficiais preparados pela Justiça Eleitoral.
O TSE - Tribunal Superior Eleitoral informa que os programas utilizados nas urnas passam por procedimentos de teste, assinatura digital e lacração. Em 4 de setembro de 2026, por exemplo, foi realizada a Cerimônia de Assinatura Digital e Lacração dos Sistemas Eleitorais que serão utilizados nas Eleições Gerais de 2026.
Nesse processo, são produzidos resumos digitais dos sistemas, permitindo verificar sua autenticidade e integridade. As mídias contendo os sistemas também são acondicionadas e armazenadas segundo procedimentos específicos de segurança.
O Registro Digital do Voto — RDV
O RDV permite armazenar eletronicamente os votos registrados pela urna. Os registros são organizados de maneira que permita a utilização dos dados para as finalidades previstas no processo eleitoral, preservando o sigilo da escolha individual do eleitor.
O desenvolvimento dessa tecnologia faz parte da evolução histórica da urna eletrônica e representa uma mudança importante em relação ao processo baseado exclusivamente em cédulas de papel e contagem manual.
É importante, entretanto, não confundir o RDV com o Boletim de Urna.
O RDV está relacionado ao armazenamento dos registros digitais dos votos na urna.
O BU é o resultado produzido pela seção eleitoral ao final da votação, contendo a quantidade de votos atribuída a cada candidatura, partido ou opção correspondente àquela seção.
A evolução tecnológica da urna eletrônica
A história da urna brasileira também é uma história da evolução da Tecnologia da Informação. Abaixo vemos uma pequeno gráfico de evolução a urna eletrônica brasileira.

Quais urnas serão utilizadas nas Eleições de 2026?
Nas Eleições Gerais de 2026, quatro modelos estarão em operação:

Os modelos UE2020 e UE2022 representam a maior parte dos equipamentos utilizados nas eleições de 2026. A distribuição das urnas é organizada pelos Tribunais Regionais Eleitorais conforme as necessidades de cada zona eleitoral. Isso demonstra que a Justiça Eleitoral não utiliza necessariamente uma única geração de equipamento em todas as seções.
Biometria: uma camada adicional de identificação
A biometria foi incorporada gradualmente ao processo eleitoral brasileiro. Os primeiros equipamentos com leitor biométrico surgiram na geração UE2006, e posteriormente foram realizados testes-piloto antes da expansão da tecnologia para um número cada vez maior de eleitores. A biometria utiliza características físicas, especialmente as impressões digitais, para auxiliar na identificação do eleitor. Entretanto, é importante fazer uma distinção:
Ter uma urna equipada com leitor biométrico não significa que todos os eleitores daquela seção necessariamente tenham biometria cadastrada.
Nas Eleições de 2026, a identificação biométrica é utilizada nas seções eleitorais, mas a ausência de biometria cadastrada não impede o exercício do voto. Segundo as regras estabelecidas para 2026, quando o eleitor não possui biometria coletada, sua habilitação para votar pode ocorrer mediante a confirmação do ano de nascimento informado à mesa. Também existe procedimento específico para situações em que a biometria cadastrada não é reconhecida. Portanto, é possível que um eleitor esteja diante de uma urna equipada com leitor biométrico e, ainda assim, vote sem utilizar sua própria impressão digital. Isso é importante porque evita uma conclusão equivocada: votar sem colocar o dedo no leitor não significa que a urna não possua biometria.
A arquitetura da urna
Outro aspecto interessante é a divisão física do equipamento em diferentes interfaces. A urna possui o terminal do mesário, utilizado para procedimentos de identificação e habilitação do eleitor, e o terminal do eleitor, utilizado para a escolha dos candidatos e confirmação do voto. Essa separação organiza o fluxo da votação e mantém as funções do mesário distintas daquelas realizadas pelo eleitor.
Do ponto de vista da informática, podemos observar nessa arquitetura princípios semelhantes aos encontrados em outros sistemas computacionais especializados: controle de acesso, separação de funções, interfaces específicas e restrição das operações disponíveis.
Acessibilidade
Abaixo podemos ver a representação a acessibilidade das urnas eletrônicas brasileiras:

A tecnologia eleitoral, portanto, não evoluiu apenas em velocidade de processamento e segurança. A interface também foi modificada para tornar a votação mais acessível.
Segurança física
A proteção do sistema não depende exclusivamente de software. Existem também mecanismos físicos e procedimentos destinados a dificultar alterações não autorizadas nos equipamentos e nos sistemas utilizados durante as eleições.
A infraestrutura envolve controle das mídias, lacres, armazenamento protegido, procedimentos de transporte, preparação dos equipamentos e outras medidas de segurança. A fabricação das urnas também segue requisitos técnicos definidos pela Justiça Eleitoral. Ao longo de três décadas, quatro empresas foram responsáveis pela fabricação dos diferentes modelos, sempre seguindo especificações estabelecidas pelo TSE e procedimentos de testes e supervisão.
Isso é importante porque permite compreender que a urna não é simplesmente um computador comercial adaptado para votar. Ela é um equipamento produzido segundo especificações próprias do sistema eleitoral brasileiro.
Testes, auditoria e transparência
Uma característica importante do processo eleitoral brasileiro é a existência de procedimentos destinados a permitir testes e fiscalização dos sistemas. Um dos mecanismos conhecidos é o Teste Público de Segurança (TPS), realizado periodicamente para permitir que especialistas e instituições participantes avaliem aspectos de segurança dos sistemas eleitorais.
Além disso, os códigos-fonte dos sistemas eleitorais são disponibilizados para inspeção dentro do ciclo estabelecido pela Justiça Eleitoral. Para as Eleições Gerais de 2026, os códigos-fonte permaneceram disponíveis para inspeção desde 2 de outubro de 2025 até a etapa de assinatura digital e lacração dos sistemas, realizada em 4 de setembro de 2026.
Após os procedimentos previstos, os sistemas são assinados digitalmente e os meios que os armazenam são lacrados. Esses mecanismos não representam uma única medida de segurança, mas fazem parte de um conjunto de controles destinados a permitir verificação, fiscalização e proteção das diferentes etapas do processo.
Urna eletrônica, transmissão e totalização são coisas diferentes
Uma das questões mais importantes para compreender o sistema eleitoral é separar três etapas.
1. Registro do voto
O eleitor utiliza o terminal da urna para registrar sua escolha.
2. Produção do Boletim de Urna
Ao final da votação, a urna produz o Boletim de Urna, que apresenta os resultados daquela seção eleitoral.
3. Transmissão e totalização
Os dados dos boletins são encaminhados pelos procedimentos definidos pela Justiça Eleitoral para os sistemas responsáveis pelo recebimento e consolidação dos resultados.
Essa separação é fundamental para entender que a urna eletrônica não representa sozinha todo o sistema eleitoral brasileiro. Ela é um dos componentes de uma infraestrutura maior, que envolve equipamentos, softwares, procedimentos, servidores, sistemas de transmissão, totalização, fiscalização e auditoria.
A urna eletrônica sob a perspectiva da Tecnologia da Informação
Do ponto de vista de um profissional de TI, a urna eletrônica pode ser estudada como um sistema que reúne diferentes áreas da computação.
Hardware: Processador, memória, armazenamento, dispositivos de entrada, telas, leitor biométrico e componentes específicos.
Software: Sistema operacional, aplicativos eleitorais e outros componentes necessários para o funcionamento do equipamento.
Segurança da informação: Criptografia, assinatura digital, autenticação, controle de integridade e proteção física.
Sistemas embarcados: A urna executa software desenvolvido especificamente para uma plataforma de hardware determinada.
Armazenamento: Dados relacionados à votação e aos procedimentos eleitorais são armazenados de acordo com regras específicas.
Redes e transmissão: Embora a urna tenha arquitetura própria e opere de maneira isolada durante a votação, o processo eleitoral como um todo possui sistemas responsáveis pela transmissão e consolidação dos resultados.
Auditoria: O sistema possui procedimentos de teste, fiscalização, verificação e produção de registros que permitem acompanhar diferentes etapas do processo. Essa combinação transforma a urna eletrônica em um interessante exemplo de aplicação prática de conceitos de Tecnologia da Informação em uma infraestrutura pública de grande escala.
Uma evolução de quase três décadas
A trajetória da urna eletrônica brasileira mostra a evolução contínua de um sistema computacional criado para uma finalidade específica: registrar votos com segurança, agilidade e confiabilidade. Desde 1996, quando começou a ser utilizada em parte do eleitorado, até sua expansão nacional em 2000, o equipamento passou por sucessivas gerações de hardware e software.
Ao longo desse período, foram incorporados recursos como maior capacidade de processamento e armazenamento, biometria, acessibilidade, criptografia, assinatura digital e mecanismos de auditoria. Em 2026, a utilização simultânea dos modelos UE2013, UE2015, UE2020 e UE2022 demonstra que a modernização ocorre de forma gradual, conforme as necessidades técnicas de cada eleição.
Tecnologia e cidadania
Mais do que uma máquina de votar, a urna eletrônica integra uma arquitetura tecnológica e operacional ampla, que envolve hardware, software, segurança da informação, controle físico, armazenamento de dados, acessibilidade e fiscalização. Seu papel está diretamente ligado ao exercício do voto, um dos principais instrumentos de participação democrática. Por isso, compreender sua estrutura ajuda a perceber como conceitos da Tecnologia da Informação podem ser aplicados a uma infraestrutura pública de grande escala.
Por fim
Sua história também representa parte da evolução da Tecnologia da Informação no Brasil, mostrando como a informática pode apoiar serviços públicos essenciais e fortalecer a organização do processo democrático.
E você o que acha das urnas eletrônicas? Deixe seu comentário.




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